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terça-feira, 26 de abril de 2011

Natas Cozidas?

Deve ser uma das sobremesas mais simples do mundo. Eu diria que é tão simples que nem dá para fotografar decentemente o processo. Só o resultado final. Esse, é maravilhoso, à vista e ao paladar.


Sim, são natas cozidas. Ou panna cotta, no original italiano. Três pacotes de natas, que se fervem num tacho com cinco colheres de sopa de açúcar e seis a oito gotas de extracto de baunilha (compra-se nas ervanárias, na secção de aromaterapia). Junta-se seis a nove folhas de gelatina - conforme se prefira um pudim mais macio ou mais duro -, previamente demolhadas e derretidas no microondas. Mexe-se bem, deita-se numa forma de pudim e leva-se ao frio durante umas horas. O molho é de framboesas, mas também pode ser de frutos silvestres ou do que se queira. Para este usei uma caixa de framboesas congeladas com quatro colheres de sopa de açúcar, que se fervem num tacho e se trituram a gosto. Decorei com framboesas frescas e hortelã. 

Duas notas adicionais: 1) na versão original, usa-se uma vagem de baunilha inteira e fechada, que se ferve com as natas e deixa em infusão nas mesmas durante duas horas. Só depois se junta a gelatina. Esta versão é mais demorada e a diferença de sabor em relação ao extracto é imperceptível, logo não acho que justifique as duas horas que se tem de esperar para terminar a sobremesa; 2) usa-se a vagem aberta e com as sementes raspadas e misturadas nas natas. Este twist é a minha versão favorita da receita: em vez de um pudim de um branco imaculado, passamos a ter um branco salpicado de pintinhas pretas, que tornam o sabor mais intenso e lhe dão um aspecto bem mais interessante. E demora apenas o tempo de ferver as natas, não é preciso deixar a vagem em infusão, bastando apenas retirá-la da mistura antes de juntar a gelatina.

Mais simples é difícil...

sábado, 23 de abril de 2011

Quase quase...

A saga das malas continua. Encasquetei que havia de saber fazê-las e, após apurada leitura de vários livros, sites e fontes afins, lá me aventurei para a segunda. Às vezes gosto de dar passos maiores que as pernas - não sei muito bem porquê, já tenho idade para ter juízo - e então resolvi fazer uma mala reversível, com dois tecidos diferentes, passível de ser usada de quatro maneiras distintas. Coisa pouca para uma principiante...


Comecei-a há já algum tempo, mas só ontem tive disponibilidade para terminá-la. Usei num dos lados o tecido de umas calças minhas que já não estavam próprias para uso; para o outro lado, um tecido florido que comprei para o efeito numa ida a Campo de Ourique.


A ideia era fazer um saco tubular que se possa usar com a aba virada ou dobrada como um envelope. O saco em si correu bem, apesar de um pequeno erro de cálculo nas medidas que se revelou inócuo. 


Já a alça da mala, nem tanto: começou por ser pequena demais, um problema que se resolveu com um pouco mais de tecido. Depois, como o objectivo era uma mala reversível, decidi que a alça ficaria presa por botões, de modo a que pudesse ir trocando os lados da mala. Fazer as casas dos botões continua a ser um pesadelo e, depois de mais de uma hora perdida no processo, lá consegui fazer duas casas com uma qualidade mesmo muito discutível. Enfim, pelo menos os botões tapam o mau trabalho.  Acabada a mala, fui experimentar o efeito do reversível. A alça estragara um pouco o efeito final, acho que ficou demasiado larga e com as casas dos botões demasiado na ponta. Ainda assim, acho que ficou engraçada.

sábado, 16 de abril de 2011

O fim da semana

O final da semana é sempre um bom momento, com a perspectiva de dois dias de descanso pela frente. Às vezes não é possível quebrar logo a rotina da semana e a noite de sexta é igual à de tantas outras. Mas ontem decidi que não ia ser assim. Por isso, mal saí do trabalho, passei por uma florista e comprei três molhos de flores para enfeitar a casa. Não é algo que costume fazer, as flores cortadas morrem demasiado depressa para o meu gosto. Ainda assim, soube-me bem chegar a casa e fazer este arranjo...


Tinha uns espargos no frigorífico que tinham que ser usados, então decidi fazer um risoto de espargos com limão. Ficou uma óptima combinação.


Como já era um pouco tarde, a Catarina jantou primeiro (bolonhesa, claro, risoto não é com ela) e nós só jantámos quando ela se foi deitar. Foi bom porque pudemos jantar com calma, à luz das velas, a beber um bom vinho...


... e a ouvir música ainda melhor...


Não há nada como quebrar a rotina. E é tão fácil.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dolce fare niente

Um dos meus maiores defeitos é ser incapaz de estar em casa sem fazer nada. Quando não há nada para fazer - o que é uma raridade - eu invento. É parvo, eu sei... mas é algo que torna ainda mais apetecível os fins-de-semana fora. Não é algo que façamos muitas vezes, muito menos só os dois, mas pelo menos uma vez por ano arranjamos baby-sitting e vamos passear. Em boa verdade, mais do que passear, aproveitamos para dormir até mais tarde, para tomar um pequeno-almoço descansado e para passar tardes preguiçosas a ler, que antecedem sempre um bom jantar... este foi um desses fins-de-semana.

Comecemos pelo princípio. Custa-me sempre um bocado estar longe da Catarina. Não é que não me saiba bem, não é que não seja salutar, mas já passamos tão pouco tempo juntas que fico sempre com uma ponta de remorso por não estar com ela. Com o trabalho sob controlo, consegui tirar a sexta-feira de férias e ficar com ela, de modo a compensar um pouco o facto de irmos estar longe durante o fim-de-semana.

Apesar de a manhã ter sido conturbada - a fase do "não quero comer" voltou em força e, com ela, as fitas e os castigos - a hora do almoço foi muito, muito boa. Aproveitei a minha avó cá estar e levei as duas a comer uma pizza na praia de Carcavelos. A confusão era mais do que muita e não conseguimos ficar na esplanada, mas fomos comer um gelado depois de almoço e apanhar sol nas espreguiçadeiras que estavam à nossa disposição. Até a minha avó alinhou...


No final do dia fomos buscar o A. ao emprego e seguimos para Évora. A minha mãe tinha um belo Bacalhau à Brás à nossa espera numa mesa com os requintes habituais que eu adoro - um belo queijo, um pão magnífico e os vinhos, tinto e do Porto, de que sou fã - e, já com a barriga cheia e com novos e velhos entregues, seguimos rumo a Borba. Confesso que não gosto particularmente de hotéis, por isso prefiro sempre ficar em casas de turismo rural ou turismo à habitação, que valem sempre pelo carinho especial que os seus donos põem naquilo que fazem. Desta vez fomos para a Casa do Terreiro do Poço, mesmo no centro da cidade. O sono e o tardio da hora não me deixaram apreciar mais do que o conforto dos lençóis, mas no dia seguinte já pude tirar o devido proveito da nossa escolha.

O espaço é fabuloso, um solar antigo entalado no meio de duas ruas, com várias casas anexas a servir de alojamento. Ficámos numa das casas que dá para a rua que tinha uma varanda espectacular onde passámos uma boa parte do tempo. O jardim é lindíssimo, muito bem tratado, e gostei especialmente da profusão de potes gigantes espalhados por todo o lado. O pequeno-almoço, que é sempre uma das coisas que mais valorizo em qualquer sítio onde fico, é também muito bom, com belo pão, bolo e doces caseiros e, como não podia deixar de ser, queijinhos alentejanos à maneira.



A manhã de Sábado foi passada em Borba, que eu não conhecia. É uma cidade pequena que, não sendo especialmente interessante, tem uma dinâmica engraçada à volta dos cafés, do - pouco - comércio do centro da cidade e das muralhas do castelo. Os seus ex libris são as cooperativas de vinho e azeite e os antiquários. Os primeiros não visitámos; os segundos pareceram-me demasiado pretenciosos para aquilo que lá tinham dentro. É claro que de antiguidades pouco percebo, por isso admito que possa haver alguma injustiça nestas palavras.

O que me impressionou acima de tudo em Borba foi a praga de andorinhas. Os beirais estão repletos de ninhos e sempre que olhamos para cima há um frenesim constante na linha dos telhados. Nunca tinha visto tantas andorinhas juntas. O senhor da mota, vendedor de cautelas e pensos rápidos, estava sempre em todo o lado, para onde quer que fossemos. Deve ser com pouca dúvida uma das figuras míticas da cidade.


Uma das vantagens destes pequenos-almoços, que para além de fartos são tardios, é podermos não almoçar, o que nos liberta sempre a tarde e abre o apetite para a hora do jantar. Seguindo a sugestão de uma placa antiga, fomos a Estremoz, aqui escrito como as regras do nosso tempo ditam.


Chegámos mesmo a tempo de ver a cidade banhada pela luz do final do dia. A neblina dava um ar idílico aos campos circundantes, que estão nesta altura do ano com um tom de verde que nada tem a ver com os tons que no nosso imaginário colectivo atribuímos às paisagens alentejanas. O passeio foi curto, apenas para abrir um pouco mais o apetite. Ao contrário de Borba, Estremoz é-nos bem mais familiar, por isso limitámo-nos a caminhar um pouco pelas ruelas, a contornar a muralha e a ver o sol a descer no céu e a pôr-se, não no horizonte, mas no casario. Para mim, o pôr-do-sol mais bonito de Portugal é o que se vê das muralhas de Évoramonte, bem perto dali, mas esse ficará para uma próxima visita. Ainda assim, o de Estremoz pintou as casas de laranja, manchando momentaneamente as paredes acabadas de caiar e sem mácula. O jantar foi no São Rosas, mesmo ao lado da Pousada. Apesar de sair um pouco do orçamento, vale a visita.


A manhã de Domingo foi calma, dedicada a apanhar sol na 'nossa' varanda após outro belo pequeno-almoço. Estava, porém, na hora de regressar, de ir buscar a Cat e aproveitar o resto do fim-de-semana para estar com a minha mãe, com quem estou sempre tão pouco tempo. Vale a pena passear pelo Alentejo em qualquer altura do ano, mas na Primavera as planícies estão gloriosas, verdíssimas, salpicadas pelo amarelo das azedas e das giestas, pelo branco das estevas, pelo traçado geométrico das vinhas e pelos contornos das oliveiras. Os Açores que me desculpem mas é, para mim, o sítio mais bonito de Portugal.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Brigadeiros que significam "Obrigado!"

Há exactamente um ano mudei de emprego. Trabalhei no mesmo sítio e com as mesmas pessoas durante sete anos e meio e mudar foi um processo muito mais difícil do que alguma vez pude antecipar. Já tinha mudado antes de emprego mas nunca tinha trabalhado num sítio durante tanto tempo nem criado laços tão fortes. Tomar a decisão de mudar foi talvez a parte mais difícil. Dizê-lo aos que ficaram também me custou muito, sobretudo à minha equipa. As saudades que senti, em particular nos primeiros tempos, foram também muito complicadas de superar. Mas o que mexeu mais comigo foi, já no novo emprego, perceber aquilo que eu não sabia fazer, perceber as minhas limitações e ter que ultrapassá-las. Quando trabalhamos num sítio durante tanto tempo e a desempenhar as mesmas funções, há processos que se cristalizam e, de algum modo, perdemos alguma capacidade de adaptação. Ter que sair dessa zona de conforto, ter medo de não estar à altura é algo que abala profundamente as nossas fundações. Por isso, se eu disser que os primeiros meses foram fáceis estou a mentir. Não foram nada fáceis.

Mas, passado um ano, posso dizer que consegui. Adaptei-me bem, conquistei o meu lugar, trouxe o meu cunho pessoal à forma como fazemos o nosso trabalho e, acima de tudo, aprendi muitas coisas novas. Espero ter ensinado outras. Mas há outra parte fundamental: neste ano fiz novos amigos. Um mau ambiente de trabalho é algo não consigo tolerar. Preciso de me sentir bem com os que me rodeiam para ser produtiva e tenho a convicção de que um ambiente de cooperação traz muito mais benefícios do que um ambiente de competição selvagem, seja no trabalho, seja na generalidade das situações da vida. Por isso, não me consigo imaginar a passar oito ou nove horas do meu dia, cinco dias por semana, num ambiente hostil. O que tenho - aliás, o que tive nos últimos onze anos em quase todos os sítios onde trabalhei - é um emprego onde me sinto bem com os meus colegas, onde posso debater ideias, onde sinto que posso confiar nas pessoas. Não será assim com todos, mas é assim com a grande maioria.

Foram pequenas coisas que fizeram toda a diferença. Os sorrisos simpáticos nos primeiros dias; o cuidado para que não almoçasse sozinha demasiadas vezes; as perguntas sobre se estava a gostar; o interesse revelado em conhecer-me um pouco melhor; a disponibilidade em ajudar-me... enfim, fizeram-me sentir em casa. Talvez seja estranho para muitos o conceito de "sentir-se em casa" no local de trabalho. Eu acho que é algo de fundamental. 

Posto isto, digo sem qualquer sombra de dúvida que tenho muita sorte. Sorte por gostar do que faço; sorte por estar sempre a aprender, por poder aplicar todos os dias o conhecimento que tenho vindo a adquirir ao logo dos anos na universidade e na minha vida profissional; sorte por estar rodeada por pessoas impecáveis que me ajudaram a ultrapassar as dificuldades do último ano, que me ensinaram muito e que tão bem me acolheram. Pessoas que me ajudaram a pertencer.  A melhor forma de agradecer é tentar retribuir na mesma moeda. É isso que procuro fazer no meu dia-a-dia, da melhor forma que sei. Por isso, exclusivamente com esse propósito, fiz ontem uns brigadeiros para sinalizar o dia de hoje. Uns brigadeiros que querem dizer "Obrigado". Um obrigado sincero.


Já não os fazia há algum tempo, mas a receita é extremamente fácil e rápida, mesmo boa para um dia de semana. É só cozinhar em lume brando uma lata de leite condensado, cinquenta gramas de chocolate e vinte e cinco gramas de manteiga, mexer sempre até engrossar, deixar arrefecer, pôr no frigorífico durante algum tempo. A parte mais trabalhosa é moldar as bolinhas, mas experimentei fazê-lo com duas colheres e funcionou às mil maravilhas. E acho que eles gostaram. Assim espero, pelo menos.

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