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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pelos bons velhos tempos

Há amigos que ficam para sempre, com quem nos identificamos mesmo ao fim de muitos anos, mesmo com as voltas da vida, mesmo com encontros e desencontros. Há amigos com quem gostamos de partilhar planos futuros, histórias do presente e memórias do passado. Há amigos com quem temos pequenos rituais, uns que se perpetuam pelos anos, outros que de repente se perdem mas que, se procurarmos, estão lá à nossa espera para quando nos apetecer repeti-los, para quando algo nos trouxer à memória esses bons velhos tempos. 

Aquilo que se segue marcava uma parte dos pequenos rituais de férias com dois dos meus maiores e melhores amigos, que ao fim de tantos anos ainda me aturam. Como íamos estar juntos, decidi fazê-lo em nome dos bons velhos tempos. Não passava pela minha cozinha há quase doze anos. Tive que ler algumas receitas, fazer alguns ajustes, puxar pela memória e, por fim, lá saiu um belo bolo de bolacha, tal como dele me lembrava. 

Duzentas e cinquenta gramas de manteiga, ligeiramente amolecida, à qual se junta uma chávena de café e cento e cinquenta gramas de açúcar, transformado em pó na picadora para o creme não ter o efeito granulado. Três gemas, batidas com o resto até formar um creme fofo, que se torna ainda melhor quando se junta as claras em castelo. Castelo firme, como ditam os livros. Firme ao ponto de se virar a taça sem qualquer temor de as ver cair ao chão.


Um pacote e meio de bolacha Maria. Trezentas gramas, vai dar ao mesmo, embebidas uma a uma em café bem forte. Uma camada de bolachas, outra de creme.


Bolachas, creme, bolachas, creme...


E assim sucessivamente até esgotar as bolachas e deixando algum creme para a cobertura.


Poderia ter ficado apenas assim, mas torrei umas amêndoas laminadas para enfeitar e para dar um pouco de textura. 


Foi um twist, mas as receitas são por vezes como as grandes amizades: vão ficando mais ricas e elaboradas com o tempo.       

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O sofisticado não tem que ser complicado

A maioria dos nossos jantares durante a semana são coisas simples, daquelas que se fazem em trinta minutos (de preferência com o mínimo de intervenção possível) e que não têm grande ciência ou então alguns pratos que eu faço em maior quantidade e que congelo para as refeições semanais, sendo que depois basta aquecer e fazer um acompanhamento. Chegar a casa depois das sete, ter uma criança de cinco anos a precisar de banho e de brincar e fazer um jantar complicado não são propriamente coisas compatíveis... a menos que se consiga inovar sem complicar. 

Esta primeira semana pós-férias tem sido um pouco preenchida, com um trabalho para entregar no emprego, com o início das aulas e tudo o que isso implica (reuniões, compra de material, actividades no primeiro dia), com o difícil regresso à  rotina e à necessidade de nos despacharmos depressa de manhã e com o trânsito característico da primeira semana do ano lectivo. Tenho almoçado na secretária quase todos os dias e estava mesmo a precisar de um jantar diferente...

Mas basta de queixumes, voltemos ao tema do primeiro parágrafo, bem mais interessante do que as dificuldades da vida: um jantar sofisticado que não é complicado... o que será? 

É preciso: uma cataplana e meia dúzia de ingredientes. Ao contrário do que muitos pensam, cozinhar na cataplana é das coisas mais fáceis do mundo. É só pôr os ingredientes lá dentro, fechar e deixar cozinhar em lume brando. Se não acreditam, experimentem...  


As combinações são quase infinitas. Desta vez, cobri o fundo de azeite, fiz uma cama de cebola às rodelas, juntei filetes (de peixe-galo, mas funciona com quaisquer outros, ou com postas de peixe) temperados com sal e sumo de lima e deixei cozinhar. Nada mais.


Entretanto, fiz um risoto de lima para acompanhar. A técnica básica do risoto é a que descrevi aqui, mas juntei no final sumo e raspa de lima e queijo ralado (faltando parmesão, usei um queijo alentejano muito seco que tinha em casa). Como os sabores são muito fortes, optei por não juntar manteiga no final e acho que não fez lá falta.


Apesar de a fotografia não lhe estar a fazer justiça, o resultado final foi este. Estava óptimo, é bonito e demorou trinta e cinco minutos a fazer. Recomendo, mesmo depois de um dia de trabalho!


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As belas beldroegas...

Há coisas que eu adoro e que raramente consigo encontrar em Lisboa. As beldroegas são uma delas. É uma pena, porque sopa de beldroegas é provavelmente uma das coisas mais deliciosas que conheço. Os sabores que se misturam nesta sopa são fortes e talvez não seja algo para todos os palatos, mas para quem tenha uma costela alentejana é certamente um petisco irrecusável. 


Encontrei estas belas beldroegas à venda no mercado de Vila Real de Santo António, no mesmo sítio onde comprei as batatas maravilhosas que também usei na sopa. Um pouco mais à frente, esperava-me esta bela réstia de alhos, de produção nacional, é claro, que nada têm a ver com as porcarias espanholas ou (pior ainda) chinesas que aparecem por aí. Para esta sopa é bom usar-se os melhores alhos que conseguirmos encontrar, uma vez que as cabeças se usam inteiras (sem a pele branca) e que não são para dar sabor, mas sim para comer.

   
Usei um tacho de barro que comprei também no mercado (o cá de casa estalou e já andava para comprar um novo há algum tempo) e onde a comida deste género fica sempre mais saborosa. O processo é simples e para duas pessoas a receita é a seguinte: refogar uma cebola grande, cortada às rodelas, numa boa quantidade de azeite. Quando estiver transaparente e a começar a fritar, juntar as beldroegas, tapar o tacho e deixar suar. 
  

Quando as beldroegas começarem a ficar cozinhadas, deita-se água a ferver, um pouco de sal, batatas às rodelas e as cabeças de alho inteiras. Deve deixar-se ferver durante alguns minutos e juntar um queijo de cabra de pasta dura, cortado em oitavos, que ferverá no caldo durante mais uns minutos. Quando tudo estiver cozinhado, basta escalfar os ovos no caldo e fica pronta a servir.


O resultado final é o que se segue. Se os alhos vos fizerem confusão, garanto que ficam com um sabor muito suave, basta abrir a casca e saborear. Quanto ao ovo, eu gosto dele assim, com a clara cozinhada e a gema quase crua, para poder molhar o pão.


Para mim, é uma das melhores sopas do mundo. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O outro lado dos dias de chuva em terras algarvias

Os primeiros dias no Algarve foram de chuva. E o que é que se pode fazer quando chove, por vezes a potes, num sítio onde o que tem de melhor é a praia? Quando está um céu como este?


Bem, cada um com os seus prazeres. Para a Catarina, na impossibilidade de ir para a praia ou para a piscina, ir andar de carrossel e comer um gelado parecia um bom plano alternativo. Se Monte Gordo é feio, Vila Real tem muito mais encanto, não só pelo mercado, mas também (e sobretudo) pelas vistas do Guadiana, com Espanha lá ao longe. 


Para o André, a chuva até foi uma bênção, já que o relógio não pára nunca e ainda faltava pintar algumas coisas para o torneio do próximo fim-de-semana. No entanto, quando falei em irmos sair, a  resposta foi: vamos comer um crepe a Vilamoura! Para quem está em Monte Gordo, é preciso um bom motivo para ir a Vilamoura comer um crepe. Como este:


Digamos que lhe ficou debaixo de olho desde o jantar com os nossos amigos aqui. O original leva chantili, mas se se pedir sem o dito cujo, pode-se escolher mais uma bola de gelado... que foi de Ferrero Rocher (go figure...). 

O meu prazer? Fotografar, fotografar, fotografar...

... a trégua de São Pedro...


... a pesca...


... o sol em chamas a apagar-se nas águas da marina...


... a beleza do antigo...


... o contraste...


Termina assim o relato das nossas férias. Nos poucos dias de bom tempo que nos restaram, a máquina ficou em casa e limitámo-nos a aproveitar um pouco o sol e a água do mar, que estava bem quente. Foram umas belas férias, com três mil e quinhentos quilómetros de estrada percorridos, boa comida, boa dormida (salvo algumas excepções) e, sobretudo, com tempo para estarmos juntos, que é a melhor coisa do mundo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Abrandando o ritmo

Dia 11. Após um dia de estrada e um dia em casa para descarregar o carro e ir buscar roupa limpa, seguimos para sul. Estávamos no dia trinta de Agosto e o André fazia anos. Sei que para ele um bom dia de anos é um dia sem grandes confusões, a comer bem e a descansar melhor, então reservei-nos uma noite na Herdade do Freixial, em Vila Nova de Milfontes, um turismo rural mesmo ao nosso gosto: simples, ordenado, com uma boa piscina e um pequeno-almoço ainda melhor. O apartamento era óptimo (excessivo para apenas uma noite, mas era o único disponível) e tinha um terraço maravilhoso, perfeito para terminar a tarde em beleza.


No entanto, a piscina e os jardins eram ainda melhores e foi aí que passámos a maior parte do tempo, a mergulhar, na piscina de bolhas, a beber umas caipirinhas e, sobretudo, a descansar. Afinal, haviamos já percorrido mais de três mil quilómetros desde o início das férias e era tempo de parar um pouco e relaxar.


A noite foi muito bem passada e começámos o dia seguinte com um grande pequeno-almoço, mesmo como gostamos. Apesar de termos que sair do quarto até ao meio-dia, ficámos na piscina até às quatro da tarde, altura em que se levantou um vento muito frio e o céu se cobriu com um capacete cinzento, que mais tarde iria transformar-se na chuva que marcou os nossos primeiros dias no Algarve, para onde seguimos de imediato. Sinais do verão mais chocho de que tenho memória...

sábado, 10 de setembro de 2011

Pelas albufeiras fora ou o Gerês remoto, até Pitões das Júnias

Dia 8. O sol continuava a sorrir-nos e, depois de uma manhã preguiçosa, planeámos ir até a um sítio onde estou para ir desde há uns anos, marcada pelo relato de um amigo que o considera um dos mais belos de Portugal: Pitões das Júnias. Pitões é uma das aldeias remotas do nosso país, bastante preservada, mantendo quase toda ela a arquitectura tradicional da região. A viagem até Pitões é um pouco longa e acabámos por não explorar convenientemente o casario, ficando-nos apenas pelo Mosteiro. Mas já lá vamos.

A viagem vale pelo caminho: há que passar por três albufeiras para lá chegar. A da Caniçada, a de Venda Nova e a da Paradela, todas elas responsáveis pela beleza de tirar a respiração daquele que é, na minha opinião, um dos sítios mais bonitos de Portugal. 


Depois, tivemos que percorrer vários quilómetros de vales e planícies, bem cultivados e ordenados, onde se podem ver à solta vacas, cabras e ovelhas e até alguns cavalos. Há indicações para vários turismos rurais, o que deixa já antever uma visita futura para explorarmos melhor esta zona.


Chegámos finalmente a Pitões e optámos por ir primeiro ao Mosteiro. Para o efeito, há que percorrer a pé uma pequena distância, um trilho bastante acessível para crianças, desembocando num cenário magnífico, com o som de uma ribeira a correr mesmo ao lado das paredes exteriores da capela, que é a única parte recuperada do mosteiro e que ainda funciona, mas que estava fechada aos visitantes.


Cá fora, uma criança tomava banho na ribeira enquanto o irmão dormia às costas da mãe, uma mulher de aspecto tão pequeno e frágil que me fez questionar como conseguia carregar um filho que deveria ter uns quatro anos e que era já mais de metade do seu tamanho. Lá dentro, um grupo de estrangeiros descansava após a caminhada que os levara até ali, certamente mais longa do que a nossa, e a paz do local era apenas perturbada por dois casais portugueses que se deslumbravam alto e bom som com as arcadas do claustro ou com a velha chaminé da cozinha. 


Consigo entender o entusiasmo: o mosteiro é realmente muito bonito, sobretudo quando visto assim de cima. Voltámos pelo outro trilho que nos levaria ao carro. Se tivessemos tido tempo, teriamos ido à cascata e teriamos também visitado com calma a aldeia. Mas a preguiça da manhã e a longa estrada que ainda tinhamos que percorrer para voltar ditaram a necessidade de regressarmos. O que fica é que o meu amigo tem razão: Pitões é realmente um sítio muito bonito e vale a pena, não apenas por si, mas também pelo caminho...

Este seria o nosso último dia no Gerês e no Norte de Portugal. No dia seguinte, seguimos para Lisboa, para jantar com uns amigos e para rumarmos a Sul com roupa limpa e o carro mais leve. Foram dias bem mais calmos, com o descanso merecido apesar do pouco sol e da pouca praia. Mas esse relato fica para amanhã... 

Vilarinho das Furnas ou a força dos elementos

Bem perto do Parque da Cerdeira está a Albufeira de Vilarinho, onde céu, pedra e água se juntam de forma harmoniosa. A barragem, construida no início dos anos setenta, implicou desalojar a pequena aldeia de Vilarinho das Furnas, que iria ficar submersa nas águas do rio Homem.  Hoje em dia, se o nível da água estiver suficientemente baixo, conseguimos ver as ruínas das antigas casas, que a água foi degradando, mas que ainda assim nos proporcionam um espectáculo digno de nota.   


A estrada para lá chegar daria uma bela caminhada, mas terá que ficar para quando a Cat for um pouco maior. Também é possível ir de carro e foi o que fizemos.


A Catarina adorou, especialmente porque numa das casas ainda é possível subir as escadas. Eu contei-lhe que quando era pequena e fui àquele mesmo sítio, pensei que as pessoas tivessem morrido dentro das casas, uma ideia que me atemorizou durante alguns anos. A minha filha riu-se e chamou-me tonta, mas ficou a matutar naquilo durante algum tempo e o assunto ainda veio à baila uma ou outra vez nos dias seguintes. Pela minha parte, fiquei contente pela limpidez do céu e pelo efeito espelho que a água estava a fazer. Consegui aqui algumas das fotografias de que mais gostei de entre as que fui tirando ao longo das férias.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Gerês ou o desafio da vida (quase) selvagem

Dia 6. Se na véspera haviamos chegado ao Gerês com sol e céu limpo, o nosso sexto dia de férias acordou cinzento, apontando a previsão para uma tarde e noite de chuva. Tal não seria especialmente relevante se não tivessemos trocado o conforto dos hotéis por uma tenda de dois por dois metros quadrados, num parque a seiscentos e quarenta metros de altura, com a temperatura a roçar os oito graus centígrados durante a noite. No dia seguinte, tivemos que mudar a tenda do sítio onde a montaramos na véspera, já que aquele era propenso a inundações, e vimo-nos forçados a ir comprar roupa e sacos-cama quentes. Afinal, ninguém espera uma temperatura dessas em pleno mês de Agosto. A partir das seis da tarde, começou a chover. Torrencialmente. Para primeira noite de campismo da Catarina, foi uma experiência ambígua. Boa porque é excitante adormecer ao som da chuva, a pensar se a tenda aguentará ou não, má porque não é nada agradável andar em campo, ir à casa de banho, lavar a loiça com tudo molhado... bem, o que é certo é que ponderámos seriamente vir embora no dia seguinte, caso o tempo não melhorasse. Teria sido uma pena, porque queriamos mesmo que a Cat experimentasse passar uns dias a viver sem os confortos a que está habituada. 

Felizmente, o tempo deu-nos uma trégua no nosso sétimo dia de férias. Pudemos finalmente explorar o parque e sair para passear.


Se ignorarmos os campistas que levam a casa atrás (sim, vimos tendas com televisão, edredões com folhos, cafeteiras eléctricas e outras preciosidades do género), assassinando completamente a lógica inerente a acampar, o parque é muito bonito, bem integrado na natureza circundante, limpo, organizado, um bom quartel-general para explorar o Gerês.


No dia em que chegámos, fomos para Campos do Gerês pelo caminho mais difícil: a estrada da Fraga Negra. Apesar de alcatroada, a Fraga é muito estreita e no dia em que chegámos e por ela subimos fiquei quase enlouquecida com vertigens. Mas o bicho da fotografia é mais forte e, assim que saí de lá fiquei a pensar nas belas fotografias que conseguiria tirar naquele caminho, se me enchesse de coragem e conseguisse afastar o medo irracional das alturas. Assim, mal o tempo melhorou, voltámos à estrada e, é claro, não me arrependi nem um bocadinho... para além de que, parece-me, se olhar pela lente da máquina, perco as vertigens. Como o post já vai longo, vou deixar as imagens falarem por si, sem muitas mais delongas.

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