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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Trinta e Nove



Hoje completo trinta e nove anos. Já é qualquer coisa, afinal amanhã começa o meu quadragésimo ano de vida. Após um ano duríssimo a vários níveis, que começou aliás com o único aniversário que me deixou realmente deprimida, sinto-me cheia de esperança para este novo ano. E, sobretudo, de planos.

Este foi um mês em que me dispus à introspeção e em que resolvi fazer um balanço. Pensei naquilo que planeava fazer quando a cabeça ainda estava cheia de sonhos. No que queria alcançar e, sobretudo, na pessoa que esperava ser perto dos quarenta. Alcancei muito e, obviamente, orgulho-me disso. Mas tive, como todos temos, que fazer escolhas, grandes escolhas. E foram invariavelmente escolhas que implicaram desviar-me dos meus planos dos vintes e de alguns dos meus sonhos. Chama-se vida! Percebi bem cedo que tudo o que viesse a conseguir implicaria trabalho e esforço e aceitei-o com naturalidade. Abracei essa realidade como hoje voltaria a abraçar nas mesmas circunstâncias e sem arrependimentos, portanto.  

Contudo, tenho trinta e nove e conto viver até aos noventa. Desviei-me do caminho que tracei há quinze anos, mas na realidade ainda tenho mais de cinquenta anos para o retomar. E é, precisamente, a minha decisão para este novo ano: voltar a encontrar o trilho, munida agora de armas que antes não eram mais do que ideias. E, mais do que encontrar o trilho, refazer algumas das coisas que fui perdendo com as minhas escolhas. E, desta vez, apreciar a viagem!

Bem, a conversa vai bonita e inspiradora, mas se há coisa que eu aprendi nestes anos é que não há nada mais motivador do que pôr os planos e os sonhos por escrito. É como uma espécie de contrato. Por isso, a minha introspeção resultou numa lista de quarenta coisas que quero fazer antes de completar quarenta anos. Umas são pequenas coisas que deixei de fazer com o passar do tempo, ou que fui fazendo sem suficiente compromisso. Outras são tarefas que quero riscar definitivamente da lista os próximos trezentos e sessenta e cinco dias. Algumas são mudanças de hábitos. Trinta e cinco, talvez, destinam-se a motivar-me, a levar-me ao estado mental e físico em que tenho que estar para levar a cabo as restantes cinco ou seis. Essas sim, são o real deal

E será assim que amanhã, quando acordar, darei início ao meu quadragésimo ano de vida. Com uma lista de planos e sonhos para pôr em prática e um cheirinho a vida nova!     

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Stinky, o náufrago

Em Maio passado eu e a Cat passeavamos à beira-mar antes de um almoço de família quando nos deparámos com um ursinho de peluche que parecia ter vindo com a maré. Ficámos a olhar para ele durante algum tempo e eu posso jurar que parecia que ele nos olhava de volta com uma expressão profundamente infeliz. O pêlo estava cheio de algas e de areia e parecia bastante maltratado. Deixámo-lo ali e fomos almoçar. De repente a Cat, que é sempre sorridente, sentou-se a um canto e começou a ficar muito triste e a chorar baixinho. Após alguma insistência, lá me disse que não conseguia parar de pensar no olhar triste do ursinho. Apesar de eu não ser nada dessas coisas, lembrei-me também eu daqueles olhos, cujo brilho se perdera pela força do mar e do seu sal.  Pensei no que terá passado ao sabor das marés até dar à costa naquela praia. Então, lá convenci o André a partir com a filha numa missão de salvamento. Foram e trouxeram o pobre ursinho dentro do meu saco de pano que costumo usar nas compras. Era um desafio aproximarmo-nos daquele saco, que tresandava a algas podres e a óleo de navio. Chamámos-lhe Stinky ainda no caminho para casa.


Bem, quando chegámos a casa, a primeira coisa que fiz foi encher um alguidar com água e detergente, passar o urso por água corrente e deixá-lo de molho durante umas boas horas. A água do banho de imersão ficou completamente castanha. Passei-o novamente por água e pu-lo a secar, de modo a poder limpar-lhe bem o pêlo de toda a porcaria que trazia agarrada: sargaços, fio de pesca, nafta, enfim... O coitado estava tão impregnado de água que demorou quase três dias pendurado na corda da roupa. Mas aqueles olhos pareciam ter ganho outra vida...

Depois deste primeiro tratamento, estava pronto para ir à máquina sem comprometer a limpeza do resto da roupa. Primeiro foi com roupa escura, just in case, e depois com roupa clara, num programa de água mais quente. Finalmente consegui que perdesse aquele cheiro, mas o pêlo continuava em mau estado, com uns pequenos fios metálicos que tinham escapado à primeira limpeza. Para além disso, as extremidades estavam cheias de areia, pelo que seria necessária uma intervenção cirúrgica...


Para esta parte já não tive pachorra, então deixei-o sentado à espera de uma oportunidade minha para fazer o que tinha que ser feito. No fim-de-semana passado, aproveitando a Catarina estar no Algarve, lá me dediquei ao nosso pobre ursito. Cortei-lhe toda a costura na base e retirei todo o enchimento, que ainda conseguia cheirar mal. Virei-o do avesso e tirei-lhe toda aquela areia escura que se acumulava nas patas e no nariz. Lavei novamente a parte de fora do urso na máquina e depois entretive-me a tirar um a um os pequenos fios metálicos. O enchimento é sintético e estava em bom estado, por isso uma boa noite de molho em detergente para lãs tirou de vez aquele pivete horrível. Depois de seco, ainda largou outra tonelada de areia. Voltei a enchê-lo, cosi-o com linha grossa e com um ponto mais ou menos invisível e escovei-lhe o cabelo com a escova das bonecas.


E foi assim que devolvemos a alegria aos olhos do Stinky. A Cat chega no fim-de-semana e vai vê-lo sentado na sua cama, feliz e recuperado, já sem o seu ar de náufrago. É claro que é mais um boneco. Mas é também uma boa história para contar um dia mais tarde.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Levantando o véu...

Há uns tempos referi aqui que ando a fazer umas experiências nas varandas cá de casa. Após dois anos a usar ervas aromáticas colhidas no momento, coroadas com uma plantação bem sucedida de rúcula no início da primavera, resolvi este ano ir um pouco mais longe. Quão longe? Ora vejam...  


Quando fui no outro dia ao horto comprar terra, estavam a vender rebentos de tomateiro (tomate-chucha, o meu favorito) aos quais não consegui resistir. Mesmo ao lado, estavam rebentos de courgetes. Demorei uns dias até ter tempo para os plantar num vaso decente e quando os plantei, já estavam com um aspecto moribundo. No meu desconhecimento da coisa, pus tudo no mesmo vaso, rebentos de tomate e rebentos de courgete ao molho. Os tomateiros começaram a crescer a um ritmo alucinante e as courgetes, coitadas, não passavam de uma ou duas folhas com mau aspecto. Tal como me acontece com tudo na vida, se um assunto despertar o meu interesse, fico com uma sede insaciável de conhecimento sobre o dito cujo. Então comecei a pesquisar, a ler uns livros e a ficar realmente entusiasmada com esta experiência. É a minha veia de investigadora a funcionar...

Dei então às courgetes uma casa mais espaçosa e apropriada e, no espaço de uma (!) semana, cresceu desmesuradamente. Agora já tem flores-macho e flores-fêmea, já com o projecto de courgete à espera de ser polenizado. Quanto aos tomateiros, em duas semanas cresceram tanto que têm agora um metro e vinte de altura e uns vinte frutos a crescer e a amadurecer lentamente.


Com estes resultados, voltei ao horto e resolvi comprar sementes para fazer outras experiências. Aqui, temos rabanetes e nabos. Os rabanetes crescem muito depressa e dentro de uma semana ou duas já devem poder ser colhidos. Os nabos demorarão um pouco mais, talvez um mês.


Como o espaço não abunda, resolvi comprar um sistema de horta vertical, que permite empilhar até nove vasos, com três entradas cada. Comprei apenas três para experimentar, onde tenho oito morangueiros plantados. Estão a dar morangos  pequeninos, muito doces. Para já só dá dois ou três de cada vez e é a Catarina que se tem deliciado com eles. Segundo li, só no segundo ano terei uma boa colheita, mas para já vai dando para a piada...


Comprei também estas malaguetas e, ao lado, semeei uns pimentos, que estão a demorar um pouco a despontar. Não sei se irão germinar. Veremos...


Resolvi tentar uma vez mais ter manjericão, que é uma das plantas que nunca consegui manter com bons resultados. Depois das duas semanas iniciais, parece que se adaptou. Talvez seja desta... 



Para terminar, mostro-vos como o tomilho e a hortelã estão bonitos.


Confesso que me tem dado um gozo tremendo chegar a casa e vir espreitar a minha "horta", regá-la, colher os seus frutos. A Catarina ajuda-me com bastante entusiasmo e é tempo de qualidade que passamos juntas. Não tenho objectivos específicos para esta experiência, apenas apreciar o processo, aprender com ele, enfrentar os desafios do "biológico" e, porque não, comer legumes acabadinhos de colher, mesmo que não dêem para mais do que uma ou duas refeições.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O apelo da terra

Se há algo que ainda não consegui explicar é o fascínio que a terra exerce sobre mim. Há como que um chamamento, uma ligação muito forte, quase umbilical e, por isso, completamente estranha. Tanto quanto sei a minha família esteve sempre ligada à cidade ou ao mar, pelo menos nas duas gerações que me antecedem. Consigo explicar por isso a centralidade que o mar sempre teve na minha vida, a necessidade que sempre senti de o ver, de o escutar, o alvoroço que me traz o cheiro a maresia. Consigo explicar o meu interesse pela cidade, pela sua arquitectura, pela cultura, pela sua vida e pelas suas pessoas. No entanto, nos últimos anos, tem-se desenvolvido em mim um interesse cada vez maior pela terra, um interesse que se vai convertendo aos poucos numa necessidade, numa atracção quase obsessiva cuja razão é uma perfeita incógnita.

Esta atracção poderia justificar-se se desde pequena tivesse passado férias no campo ou numa quinta. Poderia justificar-se se fosse apenas o ar puro do campo, o sossego ou o cheiro intenso das árvores a determiná-la, aqueles que vou sentindo nas caminhadas ou nalgumas viagens a destinos mais rurais. Mas não. É o cheiro da terra, o seu calor, a sua aspereza. É o que sinto ao tocar-lhe, ao revolvê-la, ao senti-la nos meus dedos. É o aroma que dela emana quando chove, a vida que tem dentro dela, a vida que dela nasce. São as plantas e as flores, as árvores e os seus frutos que dela brotam. É a natureza, mesmo no seu estado selvagem.


Este fim-de-semana foi, por isso, completamente gratificante. Fomos convidados por uns amigos para ir à casa deles, que fica na Sobreira Formosa. Já lá não íamos há nove anos e eu estava convicta que era perto do Fundão. Não é. É perto de Proença-a-Nova. A memória prega-nos destas partidas...


Voltando aos amigos. Há uns doze anos decidiram deixar Lisboa e ir viver para o campo. Tinham um terreno, construiram uma casa e, aos poucos, foram-se entregando à terra. Há nove anos, tinham pouca coisa plantada; agora, com muito trabalho, muita pesquisa, sempre à procura do melhor método, têm uma série de cerejeiras e de oliveiras, algumas pereiras, ameixoeiras, medronheiros, videiras, romãnzeiras e uma horta em expansão. Dedicam-se à terra como se dedicam a todos os que conhecem: de coração aberto e dando tudo. São pessoas extraordinárias.

Chegámos no Sábado à hora do almoço. Esperava-nos um bucho delicioso e maranhos caseiros, divinais, a saber a hortelã. Demorámo-nos à mesa, perdidos nas conversas, e depois de almoço fomos dar uma volta para ver o que tinha mudado naqueles anos.


Estava muito calor. Muito mesmo. Tinhamos que esperar pelo final da tarde para ir apanhar as cerejas. A aragem que corria era fresca à sombra e ali estive, na espreguiçadeiras, a sentir o cheiro dos pinheiros das matas circundantes.


A Catarina estava deliciada: podia andar por todo o lado, sem restrições. Posso ir explorar, mãe? E por explorar entenda-se correr à vontade, apanhar flores, cheirar a relva, descobrir caminhos, encontrar esconderijos, enfim, todas aquelas coisas que não tem na cidade. Mas mais importante do que essa liberdade pouco habitual na cidade foi a primeira amizade real que fez com um animal: o Apolo, um brincalhão de sete meses que em pé consegue pôr as patas nos meus ombros e que se derrete com festas na barriga. E a Catarina, extasiada com as lambidelas que recebia em troca. Há menos de um ano, era impensável aproximar-se sequer de um cão. Ficava lívida, suava em bica, mas quando em Outubro conheceu um cão de trinta centímetros e cara de Gremlin achou que se calhar os cães - e animais em geral - não são necessariamente maus.


Quando o calor finalmente acalmou, pudemos ir apanhar cerejas. O nosso amigo também tem colmeias e as abelhas gostam de se alimentar nas flores das cerejeiras, como tal não usa nas árvores qualquer químico. Se usasse, poderia matar as abelhas. Essa ausência de químicos faz com que se possa comer as cerejas directamente das árvores. Nos livros que lia em miúda havia sempre personagens a apanhar barrigadas de cerejas e confesso que tinha inveja por nunca ter apanhado uma dessas dores de barriga. Consegui a proeza de apanhar a barrigada de cerejas sem a dor de barriga associada. E a Catarina, quando ler esses mesmos livros, irá lembrar-se da sensação de comer esses frutos que ela própria apanhou. É que havia uma cerejeira mais pequena, só para ela. Esta é só para mim!, dizia, enquanto se debatia com os ramos para arrancar as cerejas ainda com os pés.



Ainda antes de o sol se pôr, deu para ir dar milho às galinhas e apanhar morangos para o jantar. O orgulho de encher um cesto com morangos fragantes dificilmente foi contido.


Não sei se quando crescer, a Catarina virá a sentir o apelo da terra. Ou do mar. Ou até mesmo da cidade. Mas pelo menos poderá lembrar-se deste dia em que se orgulhou por ter apanhado algo que iria comer a seguir. No que me toca, senti-me em casa.

sábado, 14 de maio de 2011

Sobre saladas e hortas caseiras

Adoro legumes. Como-os em grande quantidade, cozidos, salteados, com massa, estufados e, claro está, na sopa, que juntamente com o leite é a base real da minha alimentação. Não sou, no entanto, grande fã de saladas. Tal como me acontece com as maçãs, as saladas fazem-me ficar com fome - mais do que tinha antes de as ter comido - o que não me parece uma coisa muito lógica. O que é certo é que as saladas e o calor são bons amigos e acabamos por fazê-las com alguma frequência no Verão. A primeira do ano foi de rúcula com presunto e parmesão. É forte demais para o meu gosto, mas o André adora. E demora menos de cinco minutos a fazer, bastando para tal ter...

... rúcula...


... presunto...


... e parmesão.


Totalmente inesperado, eu sei...

Para além dos três ingredientes, sugiro que se tempere com um fio de azeite. Pode complementar-se com uma salada de tomate que leva...



... tomate! Estou fascinada com o nível de surpresa deste post...


Sejamos precisos: tomate cortado em cubinhos temperado com sal marinho, azeite e vinagre balsâmico. O resultado final fica inegavelmente bonito. Eu acho, pelo menos...


Hortas caseiras? Está no título? Pois está! É que a rúcula saiu da varanda directamente para a cozinha. Plantei-a numa floreira, ainda em semente. E, diz quem mais a aprecia, é deliciosa! 


Tal como a rúcula, há outras experiências a decorrer nas varandas cá de casa. Mas dessas, falarei a seu tempo...

sábado, 19 de março de 2011

Uma pequena semente

No dia doze de Março de dois mil e onze foi plantada uma pequena semente. Como portuguesa, como cidadã, como mãe, como filha, como trabalhadora, não podia deixar de lá estar. Foi apartidário. Foi pacífico. Foi ordeiro. Foi construtivo. Foi um abanão. Foi diferente. Foi muito bom.

O mote pode ter sido a precaridade no trabalho, a actual situação por que o nosso país está a passar, o descontentamento com a classe política. Ouvi várias ideias, umas que subscrevo, outras que rejeito. Vi uma iniciativa destas a nascer da sociedade civil e a ser abraçada por gente de todas as idades, credos e classes, vi famílias inteiras unidas a este gesto, vi pessoas sem trabalho, pessoas que o têm, pessoas descontentes e pessoas que estão bem com a sua vida, como é o meu caso, mas que lá por estarem bem não se conformam com o facto de quem está ao lado delas não o esteja. Para mim, foi o início da mudança, uma pequena semente plantada num terreno que tem estado ressequido, mas que tem todas as condições para ser fértil.

O que se está a passar no nosso país é da responsabilidade de todos, como defendo aqui. O contributo de uns é maior do que o dos outros, para o bem e para o mal, mas acredito que todos somos responsáveis e, como tal, todos temos que contribuir para a solução. Por isso fui. 

Neste sítio, deixo apenas as imagens e a nota de que o que aconteceu no dia doze de Março foi algo que me encheu de esperança.