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sábado, 10 de setembro de 2011

Pelas albufeiras fora ou o Gerês remoto, até Pitões das Júnias

Dia 8. O sol continuava a sorrir-nos e, depois de uma manhã preguiçosa, planeámos ir até a um sítio onde estou para ir desde há uns anos, marcada pelo relato de um amigo que o considera um dos mais belos de Portugal: Pitões das Júnias. Pitões é uma das aldeias remotas do nosso país, bastante preservada, mantendo quase toda ela a arquitectura tradicional da região. A viagem até Pitões é um pouco longa e acabámos por não explorar convenientemente o casario, ficando-nos apenas pelo Mosteiro. Mas já lá vamos.

A viagem vale pelo caminho: há que passar por três albufeiras para lá chegar. A da Caniçada, a de Venda Nova e a da Paradela, todas elas responsáveis pela beleza de tirar a respiração daquele que é, na minha opinião, um dos sítios mais bonitos de Portugal. 


Depois, tivemos que percorrer vários quilómetros de vales e planícies, bem cultivados e ordenados, onde se podem ver à solta vacas, cabras e ovelhas e até alguns cavalos. Há indicações para vários turismos rurais, o que deixa já antever uma visita futura para explorarmos melhor esta zona.


Chegámos finalmente a Pitões e optámos por ir primeiro ao Mosteiro. Para o efeito, há que percorrer a pé uma pequena distância, um trilho bastante acessível para crianças, desembocando num cenário magnífico, com o som de uma ribeira a correr mesmo ao lado das paredes exteriores da capela, que é a única parte recuperada do mosteiro e que ainda funciona, mas que estava fechada aos visitantes.


Cá fora, uma criança tomava banho na ribeira enquanto o irmão dormia às costas da mãe, uma mulher de aspecto tão pequeno e frágil que me fez questionar como conseguia carregar um filho que deveria ter uns quatro anos e que era já mais de metade do seu tamanho. Lá dentro, um grupo de estrangeiros descansava após a caminhada que os levara até ali, certamente mais longa do que a nossa, e a paz do local era apenas perturbada por dois casais portugueses que se deslumbravam alto e bom som com as arcadas do claustro ou com a velha chaminé da cozinha. 


Consigo entender o entusiasmo: o mosteiro é realmente muito bonito, sobretudo quando visto assim de cima. Voltámos pelo outro trilho que nos levaria ao carro. Se tivessemos tido tempo, teriamos ido à cascata e teriamos também visitado com calma a aldeia. Mas a preguiça da manhã e a longa estrada que ainda tinhamos que percorrer para voltar ditaram a necessidade de regressarmos. O que fica é que o meu amigo tem razão: Pitões é realmente um sítio muito bonito e vale a pena, não apenas por si, mas também pelo caminho...

Este seria o nosso último dia no Gerês e no Norte de Portugal. No dia seguinte, seguimos para Lisboa, para jantar com uns amigos e para rumarmos a Sul com roupa limpa e o carro mais leve. Foram dias bem mais calmos, com o descanso merecido apesar do pouco sol e da pouca praia. Mas esse relato fica para amanhã... 

Vilarinho das Furnas ou a força dos elementos

Bem perto do Parque da Cerdeira está a Albufeira de Vilarinho, onde céu, pedra e água se juntam de forma harmoniosa. A barragem, construida no início dos anos setenta, implicou desalojar a pequena aldeia de Vilarinho das Furnas, que iria ficar submersa nas águas do rio Homem.  Hoje em dia, se o nível da água estiver suficientemente baixo, conseguimos ver as ruínas das antigas casas, que a água foi degradando, mas que ainda assim nos proporcionam um espectáculo digno de nota.   


A estrada para lá chegar daria uma bela caminhada, mas terá que ficar para quando a Cat for um pouco maior. Também é possível ir de carro e foi o que fizemos.


A Catarina adorou, especialmente porque numa das casas ainda é possível subir as escadas. Eu contei-lhe que quando era pequena e fui àquele mesmo sítio, pensei que as pessoas tivessem morrido dentro das casas, uma ideia que me atemorizou durante alguns anos. A minha filha riu-se e chamou-me tonta, mas ficou a matutar naquilo durante algum tempo e o assunto ainda veio à baila uma ou outra vez nos dias seguintes. Pela minha parte, fiquei contente pela limpidez do céu e pelo efeito espelho que a água estava a fazer. Consegui aqui algumas das fotografias de que mais gostei de entre as que fui tirando ao longo das férias.

sábado, 3 de setembro de 2011

Ria de Aveiro ou uma lenta tarde de Domingo

Saídos da praia de São Jacinto, seguimos caminho pela língua de terra que separa o mar da ria. Era Domingo no mundo e aqui, neste pedaço de Portugal, todos aproveitavam as últimas horas do fim-de-semana para descansar, tomar um último banho, pescar o jantar ou passear de barco. Viam-se famílias inteiras reunidas, no que poderá ser um encontro ocasional ou um ritual semanal. Alguns ficariam para o jantar, como nos davam a entender os grelhadores à beira da estrada, outros arrumavam já o vasto arsenal que os acompanhou neste passeio domingueiro, com geleiras e panelas e tachos e toalhas e tudo para reproduzir à beira da estrada o conforto da mesa lá de casa. Os homens no seu bigode, que parece resistir estoicamente aos ditames da moda, as mulheres nas suas eternas batas de trazer por casa e com o ar cansado de quem tem que tratar de quase tudo sem ajuda, as raparigas e os rapazes a trocar os olhares furtivos próprios da idade e as crianças a brincar livres, longe dos perigos e das recomendações que as encarceram na cidade e as restringem às suas vidas de televisão e consolas.    


A ria, quase mar, a tudo assiste, na sua serenidade, oferecendo o fresco das suas águas e peixe que ali habita a quem o quiser apanhar.


 E estas águas acolhem também as bateiras e os barcos moliceiros, que repousam no cais preparando-se para os passeios turísticos do dia seguinte ou para as regatas que terão lugar no mês de Setembro.  


E com os olhos cheios das cores dos barcos, seguimos ria acima acompanhando o final do dia. O próximo destino seria o Bom Jesus de Braga, onde nos esperava uma tempestade épica...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Pateira de Fermentelos ou o início das férias

Há pouco menos de duas semanas, entrámos de férias. Umas muito, muito aguardadas férias, das quais temos ainda uns quantos dias pela frente, que se esperam mais calmos e relaxados. Afinal, fizemos até agora mais de dois mil e setecentos quilómetros por Portugal e pela Galiza e está na altura de trocar a estrada por uns momentos de descontração. Agora vou ter mais tempo para escrever o relato em diferido dos últimos dias que, apesar de cansativos e apesar do clima completamente instável, foram muito, muito bons.


Para o nosso primeiro dia de férias estavam previstos trinta e três graus de temperatura, mas estes viriam acompanhados por uma inclemente chuva e trovoada, diziam os meterologistas. Assim, ainda em casa, decidimos mudar um pouco os nossos planos iniciais. Ir de férias sem ter nada marcado tem destas vantagens, por muito que custe a uma control freak do meu calibre. Então, em vez de começarmos a viagem pelo Gerês como planeado, ficámo-nos pela zona de Aveiro, mais concretamente por um sítio chamado Pateira de Fermentelos. Como o nome indica, é um lago cheio de patos numa aldeia chamada Fermentelos. Óbvio, não?
A aldeia é feia, como o são a maioria das aldeias nessa zona do país. Por feia entenda-se casas desordenadas, mal cuidadas, muitas vezes inacabadas, com barracões anexos e reflectindo uma falta de brio ímpar. No entanto, a pateira é lindíssima, sobretudo ao final do dia. Mas já lá vamos.


Ficámos na estalagem da Pateira, uma daquelas estalagens à antiga, com grandes quartos, pessoal muito simpático e tudo feito à medida das férias em família. Apesar – e por causa – do capacete de nuvens negras que cobria o céu, estava um calor insuportável. Mas havia também uma bela piscina à nossa espera.
A Cat perdeu finalmente o pouco medo da água que ainda lhe restava e consigo agora rever nela a minha infância, em que ninguém me conseguia dissuadir de estar durante horas e horas dentro do mar ou da piscina ou da banheira ou de onde quer que fosse. Quando arrefeceu um pouco, fomos para a piscina interior, perpetuar a brincadeira até a fome apertar.



Na minha modesta e amadora opinião, as duas melhores alturas do dia para tirar fotografias são o início e o final do dia.  O céu assume cores sem igual quando a noite cai e a calmaria da água quando é de manhã cedo e tudo ainda dorme não tem par.

Ao cair da noite, a Pateira é assim...



E, nas primeiras horas da manhã, a sua beleza não lhe fica atrás...

 
Ficou definitivamente na lista para umas futuras mini-férias.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O apelo da terra

Se há algo que ainda não consegui explicar é o fascínio que a terra exerce sobre mim. Há como que um chamamento, uma ligação muito forte, quase umbilical e, por isso, completamente estranha. Tanto quanto sei a minha família esteve sempre ligada à cidade ou ao mar, pelo menos nas duas gerações que me antecedem. Consigo explicar por isso a centralidade que o mar sempre teve na minha vida, a necessidade que sempre senti de o ver, de o escutar, o alvoroço que me traz o cheiro a maresia. Consigo explicar o meu interesse pela cidade, pela sua arquitectura, pela cultura, pela sua vida e pelas suas pessoas. No entanto, nos últimos anos, tem-se desenvolvido em mim um interesse cada vez maior pela terra, um interesse que se vai convertendo aos poucos numa necessidade, numa atracção quase obsessiva cuja razão é uma perfeita incógnita.

Esta atracção poderia justificar-se se desde pequena tivesse passado férias no campo ou numa quinta. Poderia justificar-se se fosse apenas o ar puro do campo, o sossego ou o cheiro intenso das árvores a determiná-la, aqueles que vou sentindo nas caminhadas ou nalgumas viagens a destinos mais rurais. Mas não. É o cheiro da terra, o seu calor, a sua aspereza. É o que sinto ao tocar-lhe, ao revolvê-la, ao senti-la nos meus dedos. É o aroma que dela emana quando chove, a vida que tem dentro dela, a vida que dela nasce. São as plantas e as flores, as árvores e os seus frutos que dela brotam. É a natureza, mesmo no seu estado selvagem.


Este fim-de-semana foi, por isso, completamente gratificante. Fomos convidados por uns amigos para ir à casa deles, que fica na Sobreira Formosa. Já lá não íamos há nove anos e eu estava convicta que era perto do Fundão. Não é. É perto de Proença-a-Nova. A memória prega-nos destas partidas...


Voltando aos amigos. Há uns doze anos decidiram deixar Lisboa e ir viver para o campo. Tinham um terreno, construiram uma casa e, aos poucos, foram-se entregando à terra. Há nove anos, tinham pouca coisa plantada; agora, com muito trabalho, muita pesquisa, sempre à procura do melhor método, têm uma série de cerejeiras e de oliveiras, algumas pereiras, ameixoeiras, medronheiros, videiras, romãnzeiras e uma horta em expansão. Dedicam-se à terra como se dedicam a todos os que conhecem: de coração aberto e dando tudo. São pessoas extraordinárias.

Chegámos no Sábado à hora do almoço. Esperava-nos um bucho delicioso e maranhos caseiros, divinais, a saber a hortelã. Demorámo-nos à mesa, perdidos nas conversas, e depois de almoço fomos dar uma volta para ver o que tinha mudado naqueles anos.


Estava muito calor. Muito mesmo. Tinhamos que esperar pelo final da tarde para ir apanhar as cerejas. A aragem que corria era fresca à sombra e ali estive, na espreguiçadeiras, a sentir o cheiro dos pinheiros das matas circundantes.


A Catarina estava deliciada: podia andar por todo o lado, sem restrições. Posso ir explorar, mãe? E por explorar entenda-se correr à vontade, apanhar flores, cheirar a relva, descobrir caminhos, encontrar esconderijos, enfim, todas aquelas coisas que não tem na cidade. Mas mais importante do que essa liberdade pouco habitual na cidade foi a primeira amizade real que fez com um animal: o Apolo, um brincalhão de sete meses que em pé consegue pôr as patas nos meus ombros e que se derrete com festas na barriga. E a Catarina, extasiada com as lambidelas que recebia em troca. Há menos de um ano, era impensável aproximar-se sequer de um cão. Ficava lívida, suava em bica, mas quando em Outubro conheceu um cão de trinta centímetros e cara de Gremlin achou que se calhar os cães - e animais em geral - não são necessariamente maus.


Quando o calor finalmente acalmou, pudemos ir apanhar cerejas. O nosso amigo também tem colmeias e as abelhas gostam de se alimentar nas flores das cerejeiras, como tal não usa nas árvores qualquer químico. Se usasse, poderia matar as abelhas. Essa ausência de químicos faz com que se possa comer as cerejas directamente das árvores. Nos livros que lia em miúda havia sempre personagens a apanhar barrigadas de cerejas e confesso que tinha inveja por nunca ter apanhado uma dessas dores de barriga. Consegui a proeza de apanhar a barrigada de cerejas sem a dor de barriga associada. E a Catarina, quando ler esses mesmos livros, irá lembrar-se da sensação de comer esses frutos que ela própria apanhou. É que havia uma cerejeira mais pequena, só para ela. Esta é só para mim!, dizia, enquanto se debatia com os ramos para arrancar as cerejas ainda com os pés.



Ainda antes de o sol se pôr, deu para ir dar milho às galinhas e apanhar morangos para o jantar. O orgulho de encher um cesto com morangos fragantes dificilmente foi contido.


Não sei se quando crescer, a Catarina virá a sentir o apelo da terra. Ou do mar. Ou até mesmo da cidade. Mas pelo menos poderá lembrar-se deste dia em que se orgulhou por ter apanhado algo que iria comer a seguir. No que me toca, senti-me em casa.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Renascer

Os sete graus que os termómetros da rua marcam de manhã cedo quando vou para o trabalho lembram-me que ainda agora entrámos em Março e que os dias da semana passada foram cartas fora do baralho. Afinal, ainda é Inverno. No entanto, a natureza já reiniciou o seu ciclo, as plantas enchem-se de folhas novas, já há azedas nas bermas da estrada e os pássaros e insectos começam com as suas desenfreadas danças de sedução. Os dias são mais longos, já não é noite cerrada quando tomo o pequeno-almoço e hoje ainda vi o sol a esconder-se quando regressava a casa. 

Eu gosto do Inverno, mas entre meados de Janeiro e meados de Fevereiro sinto sempre que a minha energia se desvanece, independentemente dos meus esforços para que assim não seja. É um (longo) mês em que me sinto triste por nada e cansada por coisa alguma. Mas sei que tudo vai ficar bem outra vez quando os troncos nus das amendoeiras começam a vestir-se de branco para dar as boas vindas à Primavera.