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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Oitenta e Quatro

Não somos nada sem os outros. Quer dizer, alguma coisa seremos, mas são os que nos rodeiam que nos tornam humanos, que despertam em nós o nosso melhor lado e, por vezes, o pior. Toda e cada uma das pessoas da nossa vida nos marcam de alguma maneira. Todas têm algum tipo de significado para nós. A nossa vida é uma amálgama de trabalho obrigações, rotinas, tarefas e cada vez nos comportamos mais como máquinas. Cada vez nos ligamos mais a elas, nos relacionamos mais através delas, gastamos uma boa parte do nosso tempo livre, quando existe, com essas máquinas. Como se elas fossem a nossa referência. A nossa raiz.

E as pessoas? Continuaremos a ser pessoas sem as outras pessoas? Poderemos ter raizes sem elas? Eu diria: não! Não é possível. Por isso, há que manter as pessoas da nossa vida por perto. Há que dedicar parte do nosso tempo a quem realmente importa. A quem nos marca. A quem nos define.

Ontem, uma das pessoas mais importantes da minha vida fez anos. Quantos? Oitenta e quatro anos, trinta e quatro dos quais eu tive a felicidade de partilhar. Falo da minha avó. Da minha avó que cuidou de mim desde os primeiros dias de vida. Da minha avó que me mudou fraldas, me deu a papa, que me dava banho e me levava à praia, com quem eu passava quase todas as horas da minha infância. Que me dava pequeno-almoço, almoço e, tantas vezes, jantar, que me levava à escola e ia buscar, que me levava ao jardim e a andar de escada-rolante na estação do Rossio. Que me aturava as manias e as birras, que me ajudava com a sua paciência infinita a fazer casas de lençóis e tendas e as macacadas que eu gostava de fazer quando era pequena. E que me levava ao colo quando eu estava com preguiça e fingia estar a dormir. A minha avó ao lado de quem cresci. Que esteve sempre lá para mim. Sempre. Na minha adolescência. Quando me tornei adulta. Quando a Catarina nasceu. Ontem. Hoje. Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas. Temos as nossas coisas. As boas e as más. Faz parte.

A minha avó está por cá há oitenta e quatro anos. Sei que dentro de algum tempo deixará de estar. Espero que ainda falte bastante até chegar esse momento. 

Não sei como suportarei quando não puder sentir as suas mãos enrugadas... 


... ou ver o seu rosto afável e carinhoso...


... ou afagar o monte de neve fofa que são os seus cabelos...


... mas quando esse momento chegar, logo se verá. O que interessa realmente agora é que posso fazer tudo isso. Posso aproveitar o tempo que ainda temos juntas. Seja ele aquele que for. Hoje. Agora. Afinal, o que importa mais do que as pessoas da nossa vida?

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