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terça-feira, 10 de abril de 2012

Pelas ruas desertas de Campo Maior

Sábado amanheceu soalheiro, parecendo ter deixado para trás o mau tempo da véspera. Finalmente pudemos passear pela herdade, à beira de água, aproveitando o calor do sol que tentava sobrepor-se ao vento frio da manhã. Foi um início de dia calmo e deixámo-nos ficar por ali até às primeiras horas da tarde, saltando o almoço e optando antes por um lanche em Campo Maior. Estes pequenos-almoços fartos tomados a meio da manhã têm a vantagem de nos deixar saciados durante várias horas. Assim fizemos. Tinhamos pensado ir visitar o Museu do Café, da Delta, mas não marcámos com antecedência e tal não foi possível. Ficámos mais tarde a saber pelo Sr. João que se tivessemos ido lá e batido à porta, teriamos pelo menos conseguido pelo menos ver a adega e fazer uma prova de vinhos. Bem, será um pretexto tão bom como outro qualquer para voltarmos daqui a uns tempos… principalmente quando eu puder voltar a fazer uma prova de vinhos...

Como tal, ficámo-nos pela vila. Decidimos em primeiro lugar ir ao castelo, que se vê praticamente de qualquer ponto mais aberto. Subimos então as íngremes ruas, mas deparámo-nos com portas fechadas e com um estranho aproveitamento das suas paredes, que aparentemente alojam várias famílias à laia de pura ocupação desordenada do espaço. Assim nos pareceu, pelo menos, e nunca tal tinhamos antes visto num monumento nacional. Enfim.


Aparte desse rebuliço que saía das paredes do castelo, a cidade estava completamente deserta. Um ou outro rosto mais idoso assomava à janela mas não se via praticamente mais ninguém.


A Igreja Matriz, que se ergue imponente no meio do casario e das ruas apertadas, tinha a porta lateral aberta e deparámo-nos com um interior muito amplo, de tectos muito altos e mantida com um cuidado que já não vai sendo comum nos nossos dias. Na parte de fora, no pequeno largo que se forma ao lado da Igreja, ergue-se a Capela dos Ossos. Para meu alívio, a porta estava fechada, mas espreitando pela janela podiamos ver as ossadas misturadas com o cimento e a pedra da parede e uma série de caveiras a dar as boas vindas aos curiosos que procurassem vislumbrar o que está dentro daquele espaço. A minha relação com a morte está longe de ser boa, então qualquer contacto com o que quer que lhe diga respeito faz-me querer estar a milhas.


Por isso, a milhas me pus, caminhando a passos largos até ao largo da Câmara Municipal. Um espaço muito amplo, que contrasta com as restantes ruas apertadas da vila.



E assim continuavamos sem ver vivalma em pleno fim-de-semana de Páscoa e estavamos com dificuldade em perceber porquê. Fomos então tentar ver a igreja de São Francisco, onde está o Museu de Arte Sacra e, mais uma vez, deparámo-nos com as portas completamente fechadas. 



Nem o nome do Museu Aberto contrariava esta tendência e o mesmo se passava no Lagar Museu. Com tudo fechado, faltava ainda um tempo imenso até à hora de jantar e não sabiamos muito bem o que fazer com ele...



Foi preciso eu fazer um comentário à cruz que se via na parede de uma casa para logo aparecer o Sr. Jesus (só de nome, dizia ele insistentemente), que nos acompanhou durante quase uma hora a contar histórias da vila, das igrejas, do castelo e da sua mais recente “ocupação”. Cabelo ligeiramente grisalho, cortado à escovinha, olhos mortiços, hálito e andar etílicos, deu-nos a chave do mistério de tamanha desertificação: era dia de festa no município e todos tinham seguido para perto do santuário de Nossa Senhora de Enxara, a caminho da Ouguela, para fazer um piquenique à beira do rio como manda a tradição.



Estava desfeito o mistério, mas a conversa continuou com outras histórias, nomeadamente sobre o domínio do café sobre o azeite naquela terra, nem sempre tão vantajoso para a população.  E assim fomos por ele acompanhados até ao jardim, com grande insistência para vermos a estátua da Santa Beatriz, erguida com as moedinhas da esmola, tal como o havia sido a Capela dos Ossos.


Deixando o Sr. Jesus só de nome para trás, gastámos o resto do tempo sentados num dos bancos da alameda do jardim da vila. Pareciamos os velhotes locais, mas soube-nos muito bem apanhar os últimos raios de sol do dia enquanto ouviamos as gargalhadas felizes das crianças e desfiavamos um novelo de conversa. 

1 comentário:

  1. tantas fotos bonitas mas do Mártir Santo não está no programa, é a mesma coisa deitar o lixo para baixo do tapete vergonhoso

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